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09/11/2008 02:51
Pra recordar
O que os olhos não vêem,
o coração não mente.

enviada por Yuri Amorim
29/07/2008 20:22
Idiossincrasias de um tempo contínuo
Eis a grande notícia:
a Terra continua girando (humanocêntrica, como de costume),
o coração permanece pulsando
e o organismo, com isso, prossegue funcionando normalmente.
A vida anda para frente, presente contínuo
Apontando sempre este irrevogável destino que é o futuro incerto do pretérito (perfeito?)
A nós, só nos cabe o devir
E, às vezes, certa fome de porvir.
Mas aquilo que foi, não é mais -
restos vãos de um presente passado, há muito descontextualizado.
E fazer deste passado presente é também só perceber o presente quando já é passado.
Por isso, importante mesmo é o aqui-agora, e o que fazer dele;
É saber que como única verdade inabalável temos esta solitária condição de protagonistas das nossas próprias intrincadas tramas.
Resta-nos fazer valer cada efêmera passagem de um novo personagem;
Dar sentido às imperscrutáveis normas da dramaturgia que há em nossa narrativa cotidiana.
enviada por Yuri Amorim
22/04/2008 04:09
Notívago
Gosto da madrugada porque ela é completamente minha, assim como sou dela por completo.
E podemos ficar assim, sozinhos, no escuro, a noite inteira,
um debruçado sobre o abismo insondável do outro.
Gosto de ser tragado por sua imensa escuridão luminosa;
De me sentir testemunha dos mistérios do universo, tentando entrever sentido na apaixonante partitura das estrelas
(código-morse-jogo-de-luzes com eras e eras de delay)
Gosto de vagar livre e despreocupado (insone?) pelas ruas vazias, enquanto levo (sou levado?) o cachorro para o passeio do dia (da noite).
Não há hora melhor para soprar poesia no vento,
Pois vibra na madrugada, numa frequência surda, uma permanente possibilidade de tudo (em que tudo que pode ser, será)
[Quantos mais, além dos loucos, dos poetas e dos cães, a ouvirão?]
E é a essa força que me atiro, me entrego, despido;
A essa vertiginosa convulsão de novos impulsos, estímulos, possibilidades...
Afinal, é noite: hora em que os desatinos do dia não fazem mais sentido;
Quando, por maior o desarranjo, ainda tudo parece estar no lugar.
Então deixo meu espírito vagar por entre mendigos (cães?), putas (cadelas?), poetas (insanos?), vigias noturnos (insones?) e os demais solitários que com a escuridão comungam.
Silêncio.
É a noite que cala embasbacada com a vida, que sonha acordada.
enviada por Yuri Amorim
21/03/2008 12:06
Lua semi-colcheia
É noite: você se chega, indecisa
Vejo teu rosto dividido no escuro,
Adorável musa ambivalente
Rainha voluptuosa da volatilidade
Inútil esconder-se em si,
Vestir-se de mistérios para mim;
Eu, que bem te conheço de outras madrugadas
Quando, nua, se deitava à minha janela
Metade uma, metade outra
Teus distintos hemisférios, claro-escuro
Te revelam tão humana!
(Espelho celestial do bem e do mal)
E mirando desse jeito os teus dúbios trejeitos,
Como posso eu saber direito se prefiro respousar à sombra
Ou à luz dos meus defeitos?

enviada por Yuri Amorim
21/03/2008 11:25
Esquecimento (o sono)
Dormir para esquecer.
Mas o quê, meu Deus?
enviada por Yuri Amorim
15/02/2008 02:16
Cicatrizes
Quis curar as feridas fabricando outras.
"Mas que besteira - alguém disse -
Não há cura para a dor universal dos corações partidos
Tampouco há mais de uma ferida
Cada uma delas é a mesma, e não é nenhuma
E, por isso, a carne que fende jamais se fecha".

Amar é saber ganhar e, depois, perder.
[Tendo, nesse eterno ter-não-ter...]
enviada por Yuri Amorim
28/01/2008 10:57
Impossibilidades

Não é possível aos amantes antigos que se tornem novos (e bons) amigos
Assim como tampouco é possível aos amigos antigos que se tornem novos (e bons) amantes
Contanto que, contentes com tanto, não se contentem com tão pouco
Antes o corpo frio e sereno que o corpo quente e um grito obsceno.
enviada por Yuri Amorim
14/01/2008 07:59
Atraição
Primeiro,
o olho atrai o olho,
a boca atrai a boca,
a mulher atrai o homem,
o homem atrai a mulher.
Depois,
o olho trai o olho,
a boca trai a boca,
a mulher trai o homem,
o homem trai a mulher.
enviada por Yuri Amorim
25/11/2007 13:50
Tri-ângulos
Bom, foi quando fomos um.
Agora nada somos que não dois
Atormentados pela geométrica síndrome do três.
O triângulo tem três lados,
E o meu, ah!, como dói.
enviada por Yuri Amorim
10/03/2007 15:49
Monólogo do Espelho

No frágil universo de vidro, nem sempre a simetria é perfeita. Dois homens, separados pela desvairada superfície do espelho, em lados opostos, mundos opostos, extremos opostos, miram-se vidrados.
- Quem é você? pergunta um, de seu mundo inverso. Quem somos nós? Seremos enfim a mesma pessoa?
- De forma alguma afirma o outro, resoluto. Somos radicalmente opostos. Sua esquerda é a minha direita. Enquanto eu sou a vontade, você é o produto. Eu sou a mão; você, a marionete. Do seu mundo, sou Deus; no meu você é só reflexo.
- E o que vê quando me olha?
- Em você vejo ambições sem limites; sonhos despudorados, livres, esvoaçantes. Mas espera... Não eram meus esses sonhos?
- Se são seus, são meus os seus sonhos.
- São sonhos?
- São sãos? Vãos?
- Em vão, me pergunto quem sou diante do espelho. E, agora, já não sei quem sou. Imagem sem corpo? Corpo sem imagem?
- Como pode alguém saber quem é se dedica a vida a ser ninguém, sendo todo e qualquer um ao mesmo tempo? Quantas máscaras vestirão o artista ao longo da vida de tantos espelhos?
- Sou máscara sem rosto. Mas e o rosto por trás da máscara?
- É o meu rosto.
- É verdade. Agora me lembro. Esse seu rosto, tão familiar, costumava ser também o meu rosto.
E, no entanto, eram só um.
enviada por Yuri Amorim
27/11/2006 21:49
Fênix
O amor é a mais elegante das penas de vida
Quando queima, jamais se apaga
Quando apaga, jamais se queima
Mas teima e requeima em requinte
Renasce na certeza certeira de nunca apagar novamente
E apaga, num vazio dormente
Repousa, Resseca, Reluta
Ressurge, Reage, Revive
E somente, quando morre pela última vez junto àquele que o leva consigo, é que chega a saber realmente:
ah, como em vivo fui morte!
ah, como em morte fui vivo!

enviada por Yuri Amorim
18/09/2006 21:00
O novo
O novo era, ainda ontem, um ovo
Hoje é passado de novo.
enviada por Yuri Amorim
06/06/2006 05:54
O começo pelo fim
Talvez alguns homens precisem partir pra que anjos possam chegar
Talvez espinhos precisem ferir pra que rosas possam brotar
Talvez lágrimas precisem cair pra mais um sorriso poder levantar
E depois quando outro partir, como anjo o homem voltar
Se o vermelho do sangue ferir, o encanto da rosa corar
E no canto o pranto secar, outra vez um sorriso cantar
O fim pelo começo
O começo pelo fim.

enviada por Yuri Amorim
25/04/2006 21:05
Presente
O que eu tenho agora é você
Tendo, nesse ter-não-ter
Que ainda mesmo é tão melhor que o só não ter
E tendo-a, ainda que à distância, é perfeito te ter
Tanto tempo não tive nada pra ter
E agora tão somente não tenho nada a perder
Que quero te ter, te ter, te ter
Até morrer!
Tive muita sorte em te ter aqui
No coração de um caminho que leva aí
Agora te tenho ao meu lado, calado e distante
Mas te tenho e te ter já me é o bastante!
Num dia que o presente devia ser teu
Faço do teu presente o meu
E a presente certeza que tenho no peito:
De que tu é o meu presente, meu leito.

enviada por Yuri Amorim
04/03/2006 20:16
Receita para a latitude longitudinal do seu coração
Substitua-me
Corta-me o coração, mas substitua-me por alguém que possa estar ao seu lado
E fazer de ti tudo o que eu poderia fazer de ti, ou mais
Substitua-me de bom grado pra que eu possa de longe saber que és feliz
Aceite o mundo ao seu redor
E ao redor de ti, o olhar do mundo
Faz que a vida não te apresentou a mim
E segue em frente, sempre em frente
Pra que minha vida siga adiante
E a tua.
(Até o ponto em que talvez, futuramente, ambas possam covergir novamente naquele lugar distante chamado "Final feliz".)

enviada por Yuri Amorim
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